O que há (e o que falta) nos polêmicos “Arquivos Epstein” liberados pelos EUA

Por dias, a Procuradora-Geral Pam Bondi falou sobre a divulgação dos “Arquivos Epstein”, documentos supostamente secretos que o governo federal possuiria sobre alguns dos poderosos que orbitavam ao redor do financista desacreditado Jeffrey Epstein.

No entanto, as cerca de 200 páginas de documentos divulgadas por Bondi na quinta-feira continham poucas novas informações que apontassem para irregularidades cometidas por qualquer um, além do próprio Epstein, um criminoso sexual registrado que morreu na prisão.

A divulgação consistia principalmente em registros de voos dos aviões de Epstein — já tornados públicos há muito tempo — e informações de contato de centenas de associados, juntamente com breves descrições de itens encontrados em suas residências.

De promessa a decepção

A divulgação foi anunciada como um marco de transparência no Departamento de Justiça. No entanto, a primeira liberação de documentos, que Bondi promoveu como “notícia bombástica” em uma aparição na Fox News na noite de quarta-feira (26), revelou-se em grande parte um teatro político.

O anúncio confuso ao longo do dia ainda gerou novas teorias da conspiração entre alguns apoiadores do presidente Donald Trump, que veem a investigação de Epstein como uma fonte de mistérios e segredos encobertos.

Na quinta-feira à tarde, Bondi e Kash Patel, diretor do FBI, ofereceram uma prévia dos documentos a vários influenciadores conservadores, alguns dos quais saíram da Ala Oeste segurando pastas brancas rotuladas “Os Arquivos Epstein: Fase I”. Um deles mais tarde chamou a pasta de “um souvenir interessante”.

Porém, até o meio da tarde, o Departamento de Justiça ainda não havia publicado o conteúdo. Bondi começou a receber críticas nas redes sociais de apoiadores que haviam acreditado em sua promessa na noite anterior. A personalidade conservadora Glenn Beck postou na plataforma X: “Os arquivos Epstein são uma piada total”, e perguntou: “Quem está sabotando o presidente?”

Bondi respondeu prometendo mais documentos em breve. Mais tarde, disse que uma “fonte” do FBI em Nova York havia lhe informado que o órgão reteve “milhares” de páginas inéditas de documentos sobre Epstein e que ela estava determinada a obtê-los, conforme uma carta divulgada por seu porta-voz.

Mais promessas

Os documentos foram publicados na noite de quinta-feira, acompanhados de uma declaração de Patel: “Se houver lacunas, iremos encontrá-las. Se registros foram escondidos, iremos descobri-los”.

Ainda assim, alguns republicanos no Congresso expressaram sua insatisfação nas redes sociais.

“ISTO NÃO É O QUE NÓS OU O POVO AMERICANO PEDIMOS, É UMA DECEPÇÃO COMPLETA. NOS DÊ AS INFORMAÇÕES QUE PEDIMOS!” escreveu a deputada Anna Paulina Luna, da Flórida.

Quem é Jeffrey Epstein?

Epstein, um desistente da faculdade e autoproclamado gênio financeiro, se suicidou em agosto de 2019, um mês após sua prisão sob acusações federais de tráfico sexual.

Estima-se que Epstein tenha abusado sexualmente de mais de 200 adolescentes e jovens mulheres ao longo de três décadas. Durante esse tempo, acumulou uma fortuna de US$ 600 milhões e fez amizade com algumas das pessoas mais influentes e famosas do mundo.

Os documentos finalmente publicados incluíam uma lista inteiramente redigida de 254 pessoas descritas como massagistas.

Muitos dos nomes famosos associados a Epstein vieram à tona em 2015, quando o site Gawker publicou seu chamado “livro negro” com nomes, números e endereços.

A lista incluía magnatas como Leslie Wexner, Leon Black, Bill Gates e Reid Hoffman, todos os quais disseram se arrepender de sua associação com Epstein.

Proximidade de Tump com Epstein

Já se sabia há muito tempo que Trump, o ex-presidente Bill Clinton, o príncipe Andrew do Reino Unido e celebridades como Kevin Spacey e Naomi Campbell eram próximos de Epstein em algum momento, e alguns viajaram em seus aviões particulares, conforme registros de voos, depoimentos e documentos judiciais anteriormente divulgados.

A lista de voos mais notável foi um documento de 118 páginas apresentado no julgamento de Ghislaine Maxwell, associada de longa data de Epstein e sua ex-namorada, condenada em 2021 por ajudar Epstein em suas atividades de tráfico sexual.

Durante anos, teóricos da conspiração acreditaram que o governo encobria não apenas a causa da morte de Epstein, mas também os nomes de poderosos envolvidos com suas vítimas.

Teorias da conspiração

Nos meios conservadores, incluindo a Fox News e a plataforma Truth Social de Trump, há muito tempo circulam rumores sobre uma “lista de clientes de Epstein” com os nomes de homens para quem Epstein teria fornecido mulheres. No entanto, tal “lista de clientes” nunca foi mencionada em processos movidos por vítimas.

Antes de entrar para o governo Trump, Bondi ajudou a alimentar essas especulações ao questionar, em entrevistas, a recusa do governo em liberar documentos sobre Epstein.

O FBI também se recusou a divulgar certos documentos solicitados por advogados das vítimas e pela mídia. Em outubro, o órgão rejeitou um pedido da Lei de Liberdade de Informação apresentado pelo The New York Times, que buscava uma lista completa dos itens apreendidos pelos agentes federais nas residências de Epstein em Nova York e nas Ilhas Virgens Americanas após sua prisão em julho de 2019.

Os documentos divulgados por Bondi podem conter descrições parciais de alguns desses itens, incluindo “fita VHS”, “envelope contendo 4 CDs” e “foto retratando duas meninas”.

Mais de duas dúzias de vítimas de Epstein entraram com uma ação judicial contra o FBI, alegando que o órgão falhou em investigar adequadamente suas denúncias.

Jordan Merson, cujo escritório de advocacia representa as vítimas no processo, disse que Bondi deu um primeiro passo positivo e espera que isso leve à “seriedade necessária para lidar com a dor das vítimas” que processam o FBI.

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