Bancada do Like: o Congresso a serviço das big techs

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Kim Kataguiri (União-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS) e Filipe Barros (PL-PR), os membros da Bancada do Like. Fotos: Agência Câmara e Agência Senado

Por Reynaldo Aragon

Nos últimos anos, um novo e silencioso inimigo da democracia brasileira emergiu dentro do Congresso Nacional: a Bancada do Like. Representando os interesses das big techs, esse grupo de parlamentares tem atuado de forma coordenada para impedir qualquer tentativa de regulação das plataformas digitais, garantindo que empresas como Google, Meta, X (antigo Twitter) e iFood mantenham total controle sobre a circulação da informação no Brasil.

O impacto dessa bancada vai além da política nacional. Trata-se de um fenômeno global, inserido em uma agenda maior de desregulamentação e dominação digital, impulsionada por magnatas da tecnologia como Peter Thiel e Elon Musk.

O objetivo desse grupo, amplamente conectado à extrema-direita internacional e ao projeto político de Donald Trump, é garantir que as plataformas digitais sigam livres de qualquer controle governamental, permitindo a manipulação algorítmica da opinião pública e o enfraquecimento das instituições democráticas.

Nesse cenário, o ministro Alexandre de Moraes se tornou o principal obstáculo a esse projeto no Brasil – e possivelmente no mundo. Com o poder que detém sobre o inquérito das Fake News, a investigação da pandemia de COVID-19 e o processo contra a tentativa de golpe de 2023, Moraes tem em mãos provas robustas que revelam o papel das plataformas digitais na radicalização política, na difusão de desinformação e na proteção de interesses privados acima da ordem democrática.

Diante disso, a ofensiva contra o ministro e o Supremo Tribunal Federal (STF) se intensificou. A Bancada do Like, orientada pelos interesses das big techs, não apenas sabotou o PL 2630 (conhecido como o “PL das Fake News”), mas também articulou novas propostas legislativas que, na prática, blindam as plataformas e reduzem a capacidade de regulação do Estado brasileiro.

Essa movimentação não é um caso isolado, mas parte de um processo global de resistência contra qualquer tentativa de controle democrático sobre o poder das big techs.

O Brasil está no centro dessa disputa, e os próximos passos dessa guerra política determinarão se o país seguirá um caminho de soberania informacional ou se será absorvido pelo projeto tecnolibertário que já domina os Estados Unidos e se expande agressivamente pelo mundo. Neste artigo, analisaremos quem compõe a Bancada do Like, suas estratégias de influência, a ameaça que representam para a democracia e o papel crucial de Alexandre de Moraes nesse embate. A batalha pelo controle da informação no Brasil não é apenas uma disputa política – é uma guerra pelo futuro da democracia.

Quem é a Bancada do Like e como ela atua no Brasil

A chamada Bancada do Like é um grupo de parlamentares brasileiros que atua diretamente em defesa dos interesses das big techs, sabotando qualquer tentativa de regulação das plataformas digitais.

Inspirados no modelo de bancadas corporativas como a bancada ruralista e a bancada da bala, esse grupo foi formado com o apoio direto de gigantes da tecnologia como Google, iFood e Meta, que passaram a financiar campanhas políticas e a operar estrategicamente dentro do Congresso Nacional para garantir que as políticas públicas do Brasil favoreçam seus interesses.

Os membros dessa bancada se articulam especialmente dentro dos partidos de centro-direita e extrema-direita, sendo figuras-chave nos debates legislativos sobre regulação das plataformas digitais.

Entre os principais nomes da Bancada do Like, destaca-se Kim Kataguiri (União Brasil-SP), um dos mais ativos opositores do PL 2630, propagador da narrativa de que a regulação das plataformas digitais significaria censura estatal e articulador de campanhas contra o projeto; Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que trabalhou nos bastidores para minar qualquer avanço legislativo que pudesse afetar as redes bolsonaristas e suas estruturas de desinformação; Marcel Van Hattem (Novo-RS), defensor do discurso tecnolibertário, alinhado aos interesses das big techs e do Vale do Silício; e Filipe Barros (PL-PR), ferrenho opositor de qualquer regulação que limite o alcance de grupos políticos que dependem da desinformação para mobilizar suas bases.

Parlamentares bolsonaristas em protesto contra o PL das Fake News. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

Como a Bancada do Like atua dentro do Congresso

A Bancada do Like atua dentro do Congresso de forma articulada, utilizando três estratégias principais: sabotagem legislativa, criação de projetos alternativos pró-big techs e disseminação de desinformação com apoio direto dessas empresas.

O primeiro grande movimento do grupo foi a sabotagem do PL 2630, conhecido como o “PL das Fake News”, que buscava regular plataformas digitais para garantir mais transparência na moderação de conteúdos e responsabilizar big techs pela disseminação de desinformação e discurso de ódio.

A bancada atuou para distorcer o debate público, associando o projeto a uma suposta censura estatal e mobilizando campanhas de pressão sobre parlamentares e a sociedade. Parlamentares como Kim Kataguiri e Marcel Van Hattem chegaram a promover eventos e audiências financiadas por Google e Meta, visando enfraquecer o PL 2630 e convencer outros congressistas a rejeitá-lo.

O resultado foi o engavetamento do projeto e a manutenção do Brasil sem uma legislação adequada para combater a desinformação. Após essa vitória, a Bancada do Like passou a promover novas propostas legislativas que, na prática, blindam as plataformas digitais e limitam a capacidade de regulação do Estado brasileiro.

O novo projeto da centro-direita, apresentado como alternativa ao PL 2630, dilui qualquer responsabilidade das plataformas e reduz drasticamente a transparência algorítmica. Essa estratégia faz parte de uma agenda internacional de resistência à regulação das big techs, alinhada ao pensamento tecnolibertário de figuras como Peter Thiel e Elon Musk, que defendem um ambiente digital sem interferência estatal para garantir o domínio absoluto do mercado sobre a circulação da informação.

Além da atuação no Congresso, a Bancada do Like também utiliza sua influência para reforçar a narrativa das big techs na sociedade, financiando campanhas de desinformação contra qualquer tentativa de regulação.

Reportagem de novembro 2021 do portal The Intercept, revelou que Google e Meta financiaram eventos, viagens e até anúncios pagos para parlamentares brasileiros alinhados a seus interesses. Entre os casos mais emblemáticos, estão as visitas de deputados da Bancada do Like às sedes das big techs nos Estados Unidos, onde participaram de reuniões secretas para alinhar estratégias contra futuras tentativas de regulação.

Essas visitas, financiadas com dinheiro público, evidenciam o nível de cooperação entre o grupo e as grandes plataformas digitais.

A Bancada do Like como ferramenta da extrema-direita digital

A atuação da Bancada do Like não se limita à defesa dos interesses comerciais das big techs. Esse grupo também serve como peça-chave para a extrema-direita global, garantindo que o ambiente digital continue sendo um território sem regras, onde redes de desinformação e manipulação política possam operar livremente.

A estruturação dessa bancada no Brasil segue um modelo já consolidado nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano e aliados de Trump trabalham para impedir qualquer regulação das plataformas digitais, permitindo que essas empresas continuem lucrando com discursos extremistas, teorias da conspiração e ataques à democracia.

O Brasil, portanto, tornou-se um laboratório para essa nova forma de interferência política, onde a atuação de parlamentares nacionais está diretamente conectada a um projeto global de desestabilização institucional via redes digitais.

Nos próximos tópicos, veremos como o ministro Alexandre de Moraes se tornou o maior inimigo político das big techs e por que sua atuação no STF representa uma ameaça direta aos interesses dessa bancada e de seus financiadores internacionais.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Foto: Gustavo Moreno/STF

Alexandre de Moraes, o inimigo número um das Big Techs

Se há um nome que hoje representa um verdadeiro obstáculo para o avanço da Bancada do Like e para os interesses das big techs no Brasil, esse nome é Alexandre de Moraes. Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual relator do Inquérito das Fake News, Moraes assumiu uma posição de protagonismo global ao enfrentar, de maneira direta, a manipulação digital e os ataques sistemáticos às instituições democráticas.

Com um papel decisivo nos últimos anos, tornou-se uma figura central na tentativa de responsabilizar plataformas digitais pela radicalização política e pelo uso dos algoritmos como ferramenta de controle da informação. O embate entre Alexandre de Moraes e as big techs começou a se intensificar com o avanço das investigações sobre as redes de desinformação e ataques às instituições, especialmente após a eleição de 2018.

Em 2020, quando assumiu a relatória do Inquérito das Fake News, Moraes passou a mirar diretamente na estrutura digital do bolsonarismo, desmontando parte da máquina de propaganda que operava sem qualquer controle nas redes sociais. Esse inquérito revelou o uso coordenado de bots, disparos em massa e manipulação algorítmica, muitas vezes com o aval ou omissão de plataformas como Meta, Google e X (antigo Twitter).

O papel de Moraes se tornou ainda mais relevante com a instauração do Inquérito sobre a Pandemia da COVID-19 e, mais recentemente, com a investigação sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Com esses processos, o ministro passou a ter em mãos o maior conjunto de provas do mundo sobre como as big techs permitiram e até incentivaram a disseminação de desinformação e discursos antidemocráticos.

Se antes as plataformas já viam com preocupação a postura do STF brasileiro, agora Alexandre de Moraes se tornava um problema global para os interesses do Vale do Silício. O Brasil é um dos poucos países do mundo onde o Judiciário, e não o Legislativo, assumiu a linha de frente no combate à desinformação e na tentativa de responsabilizar as plataformas digitais.

Isso faz de Moraes uma peça única no tabuleiro geopolítico da informação. Enquanto nos Estados Unidos o lobby das big techs impediu qualquer avanço real na regulação das plataformas e a União Europeia enfrenta dificuldades para fazer valer suas diretrizes, o Brasil se tornou um exemplo concreto de que é possível enfrentar os gigantes da tecnologia.

Esse posicionamento colocou Alexandre de Moraes na mira dos mesmos grupos que trabalham para impedir a regulação digital em outros países. O ataque contra o ministro não vem apenas de políticos brasileiros ligados à extrema-direita, mas de uma ofensiva internacional articulada pelo eixo tecnolibertário do Vale do Silício.

Figuras como Peter Thiel e Elon Musk, que hoje exercem grande influência no Partido Republicano dos Estados Unidos, veem o Brasil como um campo de batalha essencial nessa disputa. Musk, por exemplo, já entrou em rota de colisão direta com Moraes ao questionar publicamente as decisões do STF e insinuar que o Brasil vive sob censura.

Esse tipo de narrativa é uma estratégia global das big techs para descredibilizar qualquer tentativa de regulação e garantir que as plataformas permaneçam como espaços sem controle. A estratégia dessas empresas e de seus aliados no Congresso brasileiro passa por desmoralizar e isolar Moraes, minando sua autoridade perante a opinião pública e criando dificuldades para que as investigações avancem.

No entanto, a realidade é que o ministro continua sendo um dos poucos agentes institucionais no mundo com poder e disposição para enfrentar diretamente as big techs, e isso faz do Brasil um caso único na luta pela regulação das plataformas digitais.

A ofensiva contra Alexandre de Moraes ganhou um novo capítulo com a aprovação, por um comitê do Congresso dos Estados Unidos, de um projeto de lei que pode levar à aplicação de sanções contra o ministro do STF.

A medida, que ainda será analisada pelo plenário, foi proposta por parlamentares republicanos alinhados à extrema-direita e ao lobby das big techs, sob o pretexto de que Moraes estaria violando a liberdade de expressão ao regular a atuação das plataformas digitais no Brasil.

Na prática, trata-se de uma tentativa de desmoralizar e isolar o magistrado no cenário internacional, enfraquecendo sua capacidade de impor limites às corporações de tecnologia e fortalecendo o discurso tecnolibertário que visa manter o Vale do Silício livre de qualquer regulação estatal.

O ataque direto a Moraes no legislativo norte-americano escancara a influência das big techs sobre a política dos EUA e demonstra que a guerra travada pelo ministro contra a desinformação digital tem repercussões globais.

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