Jeff Bezos proíbe jornalistas do Washington Post de opinarem sobre ‘liberdade de expressão e livre mercado’

Trump entre Elon Musk (esq.) e Jeff Bezos

O jornal The Washington Post, um dos mais importantes dos EUA, não publicará mais colunas de opinião que se oponham às visões centrais de seu proprietário e presidente executivo da Amazon, Jeff Bezos, segundo informações repassadas à equipe pelo próprio bilionário.

Os repórteres Benjamin Mullin, do New York Times, e Max Tani, do site Semafor, divulgaram detalhes sobre a decisão nesta quarta-feira, 26, destacando que as mudanças também incluem a saída do atual editor de opinião, David Shipley. Os comunicados de Bezos e do CEO do Washington Post, Will Lewis, vazaram durante um evento da Amazon que anunciava novas funcionalidades para a assistente de voz Alexa.

“Escreveremos todos os dias em apoio e defesa de dois pilares: liberdades individuais e mercados livres”, afirmou Bezos em um e-mail. “Uma grande parte do sucesso da América se deve à liberdade, tanto no âmbito econômico quanto em outras esferas. A liberdade é ética — minimiza a coerção — e também prática, pois impulsiona a criatividade, a inovação e a prosperidade.”

Bezos acrescentou que artigos de opinião contrários a esses princípios “ficarão para serem publicados por outros”. “Tenho confiança de que os mercados livres e as liberdades individuais são o caminho certo para os Estados Unidos”, declarou.

No e-mail aos funcionários, Will Lewis elogiou a “clareza e transparência” da mensagem de Bezos e afirmou que um substituto para David Shipley será anunciado “no devido tempo”.

Bezos amplia influência sobre o Washington Post

Bezos comprou o Washington Post em 2013, mas passou a exercer influência mais direta pouco antes das eleições presidenciais de 2024. Na ocasião, ele vetou um endosso planejado à candidatura da democrata Kamala Harris.

Embora essa decisão tenha sido comercialmente prejudicial ao jornal, ela evitou uma posição que poderia irritar o então candidato republicano e atual presidente, Donald Trump, que possui influência direta sobre o destino dos negócios de Bezos na Amazon, no setor aeroespacial e em aquisições estratégicas, como a possível compra do TikTok.

No entanto, Lewis garantiu aos funcionários que “não se trata de apoiar qualquer partido político”. Nem ele nem Bezos indicaram que haverá mudanças na cobertura jornalística do Post, que é distinta da seção de opinião. Bezos também disse que a seção continuará abordando temas que não estejam diretamente ligados aos dois pilares definidos por ele.

O novo direcionamento do Washington Post sob Bezos reflete a abordagem adotada por Patrick Soon-Shiong, bilionário proprietário do Los Angeles Times, que também impediu um endosso a Kamala Harris e declarou uma guinada editorial à direita.

Independência editorial em xeque

Todos os veículos de comunicação, de maneira explícita ou implícita, possuem limites para sua cobertura de opinião. O próprio conceito de liberdade de expressão é central para o jornalismo, e não é raro que artigos de opinião entrem em conflito com reportagens factuais. Entretanto, tradicionalmente, os donos de jornais permitem que suas equipes editoriais tomem essas decisões, a fim de preservar a independência da publicação.

No atual contexto político e cultural, até mesmo o conceito de “liberdade de expressão” pode ser interpretado de formas que incluem desde a regulação governamental até a influência de grandes corporações sobre o discurso público.

Ironicamente, muitas das questões urgentes que os Estados Unidos enfrentam hoje se encaixam perfeitamente dentro da nova diretriz editorial pessoalmente definida por Bezos.

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