Quais ações brasileiras podem ser mais afetadas com o “Dia da Libertação” de Trump?

Chegou o dia. Após semanas em que o foco dos investidores nas últimas semanas recaiu firmemente sobre a rodada de taxas recíprocas, o presidente dos EUA, Donald Trump, deve anunciar as medidas nesta quarta às 17h (horário de Brasília), no que chamou de “Dia da Libertação”. Elas devem entrar em vigor imediatamente.

Embora nenhum detalhe adicional tenha sido divulgado pela administração dos EUA, alguns relatos da imprensa destacam que a estrutura final pode ser baseada em uma taxa global fixa de 20-25% em todas as importações ou uma abordagem de tarifa recíproca.

Em um extenso relatório divulgado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, foram destacadas algumas indústrias nas quais acredita-se que o Brasil vem impondo tarifas particularmente altas sobre produtos importados dos Estados Unidos, principalmente etanol, mas também abrangendo indústrias como automóveis, peças automotivas, tecnologia da informação e eletrônicos, produtos químicos, plásticos, máquinas industriais, aço e têxteis e vestuário.

Trump já adotou tarifas sobre alumínio e aço, além de taxas sobre todos os produtos da China, o que abalou os mercados conforme aumentam os temores de que uma guerra comercial em larga escala possa provocar uma forte desaceleração econômica global.

“As tarifas podem afetar praticamente todos os países e produtos, e os temores de uma guerra comercial global estão se espalhando entre os analistas”, ressalta a XP.

Num primeiro momento, e até surpreendendo, os emergentes (incluindo o Brasil) passaram a ter uma repercussão positiva no geral em seus mercados.

Isso porque, conforme ressalta o Santander, previsões recentes para o crescimento do PIB dos EUA têm apresentado tendência de queda e, com o potencial aumento do ruído relacionado ao comércio devido a novas tarifas, o ciclo de revisão de baixas pode continuar. “O impacto dessas tarifas pode prejudicar ainda mais a atividade econômica e o sentimento, sugerindo que o pico de revisões negativas do crescimento do PIB pode ser adiado”, avalia a equipe de estratégia, ressaltando que este cenário pode ser um bom presságio para os mercados emergentes e para o Brasil, pois deve continuar a alimentar a rotação de ações dos EUA que observamos até agora neste ano.

O banco ressalta que o Brasil é uma economia relativamente fechada, com o comércio respondendo por 20% do PIB e o comércio com os EUA, apenas cerca 2% do PIB. Além disso, como aconteceu entre 2016 e 2020, a China pode aumentar sua participação nas exportações totais do Brasil, já que o Brasil compete com os EUA na exportação de grãos, petróleo bruto e proteínas. “Isso pode mitigar parte do impacto negativo proveniente de tarifas mais altas dos EUA”, avalia o Santander.

O JPMorgan, por sua vez, ressalta que, desde outubro, tem alertado que, embora o Brasil mantenha um comércio equilibrado com os Estados Unidos, suas altas tarifas de importação o tornam vulnerável às tarifas recíprocas dos EUA.

“Embora nossa perspectiva não assuma um aumento prolongado e universal nas taxas dos EUA contra o Brasil, consideramos a possibilidade de que, se não forem impactados por uma tarifa universal linear, pelo menos alguns setores serão alvos esta semana”, avalia o JPMorgan.

Para os analistas do banco, embora possa haver alguns impactos setoriais significativos, a exposição direta a esse choque comercial é relativamente baixa. O JPMorgan também estima que o PIB do Brasil poderia ser reduzido entre 0,2% e 0,3% se afetado por, por exemplo, tarifas universais de 10%. “Esse impacto poderia ser mitigado pela substituição de importações dos EUA por importações brasileiras no caso de retaliação de países como China, UE, México e Canadá contra tarifas dos EUA”, avaliam.

Olhar setorial

Olhando especificamente para os setores, o Bradesco BBI avalia que os EUA devem anunciar tarifas recíprocas sobre as importações de etanol do Brasil hoje.

“Em 2017, o Brasil implementou uma tarifa de 20% sobre as importações de etanol de todos os países (principalmente vindo dos EUA), que durou até 2022. Em 2023, o Brasil retomou a cobrança, fixando a taxa em 16%, que foi posteriormente aumentada para 18% em 2024. Como referência, os EUA atualmente cobram um imposto de importação de 2,5% sobre as importações de etanol do Brasil”, relembra o BBI.

Os analistas apontam que o Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo (atrás apenas dos EUA) e, em 2024, produziu 36,8 bilhões de litros, dos quais 1,9 bilhão de litros foram exportados, ou 5% da produção total. Enquanto isso, os EUA vêm perdendo participação nas exportações do Brasil, de um pico de mais de 65% no passado (chegando a 2,1 bilhões de litros) para apenas 16% em 2024 (0,3 bilhão de litro), com volumes mudando para outros mercados.

Ou seja, mesmo que os EUA implementem uma tarifa de importação maior sobre o etanol do Brasil e esses volumes acabem ficando no mercado doméstico, isso significaria uma oferta adicional de menos de 1% do que já está sendo consumido no Brasil, o que o banco acredita que deve ser facilmente absorvido.

Por outro lado, os EUA têm sido historicamente a maior fonte de importações de etanol do Brasil, tendo atingido seu pico em 2017, quando os preços tiveram um prêmio médio de US$ 0,15/l (litro) para o etanol dos EUA (ou um prêmio máximo de US$ 0,29/l), o que levou os volumes de importação a saltar de 800 milhões em 2016 para 1,9 bilhão naquele ano.

Desde a implementação das tarifas, os volumes de importação do Brasil caíram consistentemente a um ponto em que as importações são atualmente imateriais.

Uma saída potencial sendo discutida para evitar as tarifas recíprocas dos EUA seria tornar as importações de etanol isentas dos EUA também. No entanto, os preços do etanol do Brasil tiveram recentemente um prêmio de cerca de US$ 0,11-0,17/l sobre os preços dos EUA, o que o BBI acredita que poderia ter incentivado algumas importações se as tarifas não estivessem em vigor, enquanto praticamente não teve impacto nas exportações do país.

Assim, olhando apenas do ponto de vista do etanol, o resultado para os produtores de Brasil de ter tarifas recíprocas provavelmente seria melhor do que abrir o mercado para importações dos EUA.

“No geral, estamos mantendo nossa recomendação neutra para São Martinho [SMTO3], pois continuamos sem visibilidade sobre os catalisadores para os preços das commodities que podem levar a revisões de lucros para cima, enquanto mantemos nossa recomendação outperform [desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra] para Jalles Machado [JALL3] devido ao seu potencial de crescimento derivado do aumento de sua planta de Santa Vitória”, aponta o BBI.

O Goldman Sachs, por sua vez, fez reflexões antes do anúncio de tarifas adicionais para o setor de proteínas.

O banco aponta que o recente debate de mercado tem se centrado principalmente no comércio global, mas há dúvidas sobre a estrutura a ser adotada pelos EUA e também como o resto do mundo pode responder.

“Levando em conta as informações disponíveis atualmente, o risco material de queda para as ações sob nossa cobertura é improvável, pois a diversificação de origem/destino permite maior flexibilidade”, avalia o banco.

Em termos relativos, os analistas acreditam que a BRF (BRFS3) seria relativamente mais isolada e menos afetada, enquanto a JBS (JBSS3) poderia enfrentar uma leve pressão de curto prazo, pois um cenário mais protecionista poderia transferir mais volumes para o mercado doméstico e a pressão se espalhar nos EUA.

Ao mapear as exposições a exportações para os EUA, a Minerva (BEEF3) seria o nome da sua cobertura, em que acha que impostos de importação mais altos nos EUA teriam um impacto mais relevante no curto prazo nos lucros, já que a empresa obtém 15% de suas vendas de exportações para os Estados Unidos.

Dito isso, a maioria das vendas da Minerva para os EUA são originárias do Brasil, mas ela também tem a capacidade de redirecionar seu portfólio e exportar do Uruguai e da Argentina. “Fontes da imprensa relataram recentemente que a proximidade entre o presidente Trump e o presidente [Javier] Milei pode abrir espaço para um eventual acordo comercial bilateral entre os EUA e a Argentina”, apontam os analistas.

A carne bovina brasileira acessa o mercado americano por meio de certas cotas tarifárias compartilhadas com outros 10 países. Os Estados Unidos permitem a entrada de 65 mil toneladas de carne bovina isenta de impostos por ano. A partir desse limite, a taxa é de 26,4%. O Brasil preencheu toda a cota para 2025 nas primeiras semanas do ano.

Por outro lado, o Brasil tributa a carne bovina americana em 10,8%, mas o presidente Lula decidiu recentemente removê-los temporariamente em um esforço para tentar controlar a inflação local de alimentos.

Em um segundo momento, os analistas do Goldman mapeiam riscos mais amplos de uma guerra comercial.

“Em um cenário hipotético em que os EUA aplicam uma única tarifa sobre todos os seus produtos importados, o resto do mundo poderia seguir e retaliar com tarifas recíprocas proporcionalmente mais altas sobre as exportações americanas, desencadeando o que poderia eventualmente se transformar em uma guerra comercial global. Observamos que os principais destinos da carne dos EUA incluem Coreia do Sul, Japão, China continental, Hong Kong, México e Canadá”, avalia o banco.

Este cenário, ressalta o Goldman, pode trazer riscos particulares para a JBS (JBSS3), já que 8% de suas vendas são derivadas de exportações dos EUA. “Por outro lado, acreditamos que isso poderia criar novas oportunidades comerciais para a Minerva preencher esses potenciais espaços, já que ela vem se consolidando como uma fornecedora líder e de baixo custo para os principais mercados globais de carne bovina.
Além disso, 25% de toda a carne suína e 16% do frango produzidos nos EUA são exportados”, aponta o banco.

As tarifas adicionais sobre exportações americanas podem transferir parte desses volumes para o mercado doméstico, pressionando os atuais equilíbrios de oferta/demanda e adicionando riscos de queda aos preços e spreads dos frigoríficos. “A JBS, mais uma vez, seria o nome mais impactado em nossa cobertura, já que 7% e 13% de seu mix de vendas vêm de vendas domésticas de carne suína e de frango nos EUA”, avaliam os analistas.

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