Operação da Abin trava negociação de Itaipu, mas é considerada “caso menor”

Vista da hidrelétrica de Itaipu

Uma operação secreta da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), revelada por um servidor à Polícia Federal, reacendeu tensões diplomáticas entre Brasil e Paraguai. O motivo: ataques hackers a sistemas da Presidência e do Congresso do país vizinho em plena negociação das tarifas da hidrelétrica de Itaipu.

A ofensiva, segundo apuração do portal UOL, foi iniciada ainda no governo de Jair Bolsonaro (PL) e, segundo o depoente, contou com o aval da atual gestão, já sob o comando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

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O servidor afirma que os ataques — realizados com ferramentas como Cobalt Strike e técnicas de engenharia social — tinham como alvo senhas, cookies e dados de autoridades diretamente envolvidas nas tratativas sobre a venda de energia de Itaipu ao Brasil. Os ataques foram disparados a partir de servidores localizados no Panamá e no Chile.

A repercussão da denúncia provocou uma reação imediata do governo paraguaio, que convocou o embaixador brasileiro para prestar esclarecimentos e anunciou a suspensão das negociações sobre o chamado Anexo C do tratado de Itaipu — documento que define os termos comerciais da venda de energia da hidrelétrica. O chanceler paraguaio classificou o episódio como uma “violação da soberania nacional” e cobrou uma resposta formal do Brasil.

Apesar do impacto político, especialistas ouvidos minimizam o potencial de dano nas relações bilaterais. Para Renato Ribeiro de Almeida, coordenador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), em termos diplomáticos, o caso pode ser considerado um “caso menor”.

“É comum que países investiguem seus parceiros comerciais para obter informações que auxiliem nas negociações. Não vejo isso como espionagem, mas sim como uma questão de perspectiva dentro da narrativa paraguaia. Cabe à Agência Brasileira de Inteligência obter o máximo de informações para subsidiar a tomada de decisões”, disse Almeida.

O especialista ainda pontua que o caso expõe uma “guerra de narrativas” entre países que buscam um posicionamento mais favorável na mesa de negociação.

“Evidentemente, o Paraguai tentará, com base nesse factoide, criar uma situação embaraçosa para o Brasil a fim de obter alguma vantagem nas negociações. No entanto, acredito que a relação entre os países, passado esse momento, não enfrentará desafios ou problemas mais severos”, analisa.

Ainda segundo ele, é natural que a Abin atue na proteção dos interesses nacionais, especialmente em negociações envolvendo ativos estratégicos como Itaipu.

“Entendo que a Agência Brasileira de Inteligência não extrapolou suas funções, tendo em vista que o Brasil deve, evidentemente, resguardar seus interesses em negociações comerciais. Como o Paraguai é um país sócio do Brasil na usina de Itaipu — que, por isso mesmo, se chama binacional —, não vejo nenhuma interferência indevida. Isso só ocorreria se tratasse de algo alheio aos interesses do Brasil ou de questões envolvendo outras nações que não a brasileira.”

Desde o fim da Guerra do Paraguai, as relações entre os dois países têm sido marcadas por estabilidade e cooperação. A presença crescente de investimentos brasileiros no Paraguai e a integração comercial por meio do Mercosul sustentam um ambiente diplomático que, na visão de Almeida, deve prevalecer. “Passado o impacto inicial, não acredito que o episódio comprometa as relações de longo prazo.”

Se, por um lado, o Brasil enfrenta críticas, por outro, consolida sua atuação estratégica no tabuleiro internacional — mesmo que isso custe uma dor de cabeça diplomática com um dos seus parceiros mais próximos.

O que dizem os dois governos

Em nota conjunta, a Presidência da República e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmaram a existência da operação. Segundo o comunicado, a ação da Abin foi iniciada em junho de 2022, ainda durante o governo Jair Bolsonaro, e foi encerrada em março de 2023, após o governo Lula tomar conhecimento do caso.

A nota foi divulgada após o chanceler Mauro Vieira conversar com o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lescano. Conforme o governo paraguaio, Vieira reconheceu que a espionagem foi autorizada na gestão anterior, mas garantiu que o atual governo encerrou a operação.

Do lado paraguaio, o tom foi de cautela, mas firmeza. O Ministério das Relações Exteriores afirmou que ainda não há evidências de que os sistemas tenham sido efetivamente invadidos, mas que os organismos de investigação locais estão apurando o caso. Como resposta, o país suspendeu oficialmente as discussões sobre o Anexo C de Itaipu até que tudo seja esclarecido.

Na terça-feira (1º), o vice-ministro de Relações Exteriores do Paraguai, Víctor Verdún, convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes, para prestar esclarecimentos. “No documento [entregue a Marcondes], se requereu uma explicação detalhada sobre a ação de inteligência ordenada à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), entre junho de 2022 e março de 2023”, informou a chancelaria paraguaia.

O governo paraguaio também ressaltou que o andamento das negociações com o Brasil, especialmente no que diz respeito à comercialização de energia da hidrelétrica de Itaipu, depende da resolução completa desse impasse diplomático.

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