Privatização de praias dá surra no bolsonarismo com sua própria estratégia. Por Leonardo Sakamoto

Iha baiana de Boipeba, um dos focos da disputa imobiliária Imagem: Marcel Vincenti

Leonardo Sakamoto

O bolsonarismo está levando uma surra nas redes ao defender a proposta de emenda à Constituição que trata do controle de regiões costeiras e que pode limitar o acesso de turistas e comunidades tradicionais a praias. Aprovada na Câmara, ela está hoje sob a relatoria do senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ), que tem apanhado bastante ao encabeçar a ideia.

Ironicamente, eles estão sofrendo com o uso bem-sucedido de uma estratégia que lhes é bastante familiar: pegar um caso complexo, traduzir em uma ideia simples e rapidamente replicável ao grosso da população e bombar nas redes e aplicativos de mensagens. A ideia, neste caso, é a privatização do acesso às praias.

O UOL traz, neste domingo (9), que o senador tem perdido o debate nas redes após redigir parecer favorável à PEC que transfere terrenos em área urbana a estados, municípios e proprietários privados. O assunto furou a bolha da polarização política, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas.

Quanto mais simples o conceito, melhor a mensagem consegue ser passada e mais facilmente ela é absorvida. Isso vale para a publicidade de produtos ou de ideias. Não raro, setores da esquerda querem fazer um tratado ao explicar um ponto à população e falam apenas com a sua bolha. O bolsonarismo percebeu que menos é mais.

Diante disso, a questão da privatização do acesso vem viralizando como rastilho de pólvora, gerando indignação. O senador e seus aliados estão gastando saliva para tentar explicar que as faixas de areia não serão vendidas. Mas não está fácil. Até porque a própria argumentação, além de ser mais complicada que a ideia presente na acusação, é rapidamente retrucável.

A proposta não vende faixas de areia, mas abre brechas a quem ocupa suas margens de limitar o acesso a elas – o que, na prática, tem resultado semelhante para o turista, que pode ver dificultada sua entrada em um local controlado por um resort, por exemplo. Isso sem contar os problemas a pescadores, caiçaras e ribeirinhos, que moram, trabalham e, por isso, protegem o meio ambiente local, que podem ser impedidos de fazer isso.

O caso aponta a força de simplificar a comunicação. Sim, isso beneficia não apenas a desinformação usada para atacar grupos minoritários em direitos e o Estado democrático de direito por radicais, mas também pode ser usada para proteger direitos.

O ex-presidente Michel Temer – Foto: Reprodução

Em outubro de 2017, o governo Michel Temer baixou uma portaria mudando as regras de fiscalização do trabalho escravo, o que dificultaria o resgate de pessoas exploradas, diminuiria a punição aos escravagistas e reduziria a transparência sobre os flagrantes. As entidades de combate a esse crime traduziram isso em uma ideia muito simples: Temer dificultou a libertação de escravizados.

O governo não foi capaz de vender sua versão, cheia de poréns e entretantos, e a onda de indignação gerada derrubou a medida.

É possível instalar projetos de turismo com a lei existente, tanto que eles existem aos borbotões em nossa costa e, não raro, já privatizam o acesso ao espaço público, expulsam e poluem, dada a fiscalização insuficiente e o conluio com o poder local. O projeto, que poderia atualizar apenas questões de pagamentos de taxas relacionadas à transferência, busca tratar do controle das áreas pela iniciativa privada.

Praias são o espaço mais democrático do país, em que ricos (ainda) têm que engolir os pobres a seu lado. É coerente que, depois de atacar instituições democráticas durante anos o bolsonarismo esteja defendendo um projeto que abre brechas antidemocráticas. E irônico que ele esteja padecendo do próprio remédio.

Originalmente publicado na coluna de Leonardo Sakamoto, no Uol

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