O desespero de Michelle na hora da mudança. Por Moisés Mendes

Caminhão que fez a mudança de Jair Bolsonaro no fim de mandato. Foto: Divulgação

O caminhão da mudança pode ser tão assustador quanto o carro fúnebre. O coronel Mauro Cid sabe o estrago que um caminhão é capaz de provocar em situações politicamente dramáticas.

Cid foi testemunha da reação de Michelle Bolsonaro, quando a então primeira-dama entrou em pânico no momento em que teve de abandonar o Palácio da Alvorada, no final de 2022.

Cid contou em delação diante de Alexandre de Moraes que Michelle se descontrolou ao ver o caminhão (foto) que levaria as coisas da família. E, disse ele, Michelle ‘quase pirou’.

Porque o caminhão de mudanças nos põe diante de uma realidade muitas vezes negada: é a hora de ir embora. E quando o que nos atormenta pode ser a vontade incontrolável de ficar.

As trouxas vão sendo enfiadas no caminhão junto com memórias e sonhos adiados, irrealizados ou incompletos, que ficarão ali na casa de onde as trouxas estão saindo.

Michelle via as trouxas sendo enfiadas no caminhão da mudança e, conforme a delação de Mauro Cid, se desesperava e dizia: façam alguma coisa, vocês têm que fazer alguma coisa.

A coisa a ser feita era o golpe. O marido, derrotado por Lula na eleição, dedicava-se à última chance, na continuação da armação golpista que levaria 5 mil manés à invasão de Brasília. E deu no que deu.

Michelle havia sido convencida pelo núcleo do Planalto, depois de ser vista por Cid como figura ativa na defesa do golpe, de que tudo daria certo. E de que ela nunca mais faria mudanças.

Nas cabeças de Bolsonaro, Michelle, Braga Netto, Augusto Heleno, Mario Fernandes, Anderson Torres, Mauro Cid e seus subalternos no golpe, eles nunca mais sairiam do poder.

Bolsonaro seria dono do Planalto e Michelle poderia ser a dona vitalícia do Alvorada. Era como a imperatriz Teresa Cristina se sentia no Palácio de São Cristóvão, até ver o marido Pedro II deposto em 1889.

Mauro Cid conhecia a realidade do Alvorada como poucos. O coronel contou a Moraes, numa das sessões de revisão da delação, que Bolsonaro se deprimiu tanto, depois de perder a eleição para Lula, que os generais temiam por sua saúde mental.

Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Foto: Divulgação

Cid disse que Heleno recomendava vigilância permanente ao lado de Bolsonaro e que até dormisse com ele no Alvorada. Cid, o ajudante agora abandonado pela família, dormia com Bolsonaro no palácio. Porque o sujeito enfrentava o que o coronel define na delação como ‘luto profundo’.

Era preciso dar suporte ao perdedor, enquanto alguns levavam adiante a ideia do golpe. Pois esse Cid, que deu colo a Bolsonaro, que foi durante anos serviçal de Michelle, esse Cid viu o desespero provocado pelo caminhão da mudança.

Cid pode ter sido machista e ressentido quando disse a Moraes que o desespero na cena do caminhão era ‘coisa de mulher’, acentuando o fato de que Michelle achava que o Alvorada seria sua casa para sempre. Mas foi o que ele viu.

E viu Deus falhar com Michelle, como já havia falhado com Teresa Cristina, porque Deus vacila sobre o que fazer com golpes. Tanto pode apoiar como pode condenar golpes.

Teresa Cristina teve de deixar o Palácio de São Cristóvão porque o marido havia sido derrubado por um golpe militar apoiado por Deus.

Michelle mudou-se do Alvorada porque seu marido tinha sido derrotado por Lula na eleição e fugiria logo depois para os Estados Unidos à espera do resultado de uma tentativa de golpe que teria o apoio de Deus e até de marcianos. Não teve.

Teresa Cristina foi mandada embora do palácio do Rio pela competência dos golpistas liderados por Deodoro da Fonseca, um marechal medíocre. Michelle fez a mudança e não conseguiu retornar ao palácio de Brasília por causa da incompetência de um tenente medíocre que falhou também como golpista.

E tudo isso não é fofoca, nem intriga, nem banalidade. É parte da micro-história da nova extrema direita brasileira. O caminhão da mudança também ajuda a explicar a situação que vivemos.

A cena do caminhão no Alvorada, testemunhada por Cid, teria sido mais dramática se o coronel tivesse visto, no alto de uma trouxa, um cachorro com os olhos arregalados.

Porque a cena clássica de mudança de casa tem um cachorro. Mas, como lembram sempre sobre a passagem da família pelo Alvorada, os Bolsonaros nem cachorro tinham.

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