Cacique desde os anos 50, Raoni cobra Lula para indicar um sucessor

O presidente Lula junto ao líder indígena Raoni Metuktire. Foto: Divulgação

Presidente Lula foi nesta sexta-feira (4) à aldeia Piaraçu, no Parque do Xingu, em Mato Grosso, e ouviu cobranças diretas do cacique Raoni Metuktire sobre a sucessão presidencial, demarcação de terras indígenas e a possível exploração de petróleo na foz do rio Amazonas.

Durante a cerimônia de entrega da medalha Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito — a mais alta honraria do Estado brasileiro —, Raoni aproveitou o momento para reforçar suas preocupações com o futuro das políticas indigenistas no Brasil.

Ele pediu que Lula escolha um sucessor comprometido com os povos originários: “Quero pedir ao senhor para pensar no seu sucessor, que tem que ser o próximo presidente da República, para continuar seu trabalho de proteger os povos indígenas e o nosso território.”

Raoni também mencionou que precisou convidar Lula três vezes até que o presidente comparecesse à terra indígena. “Quero que eu e o senhor façamos um trabalho que beneficie os povos indígenas do Brasil”, disse o líder, que evitou confrontos diretos, mas reforçou seu posicionamento contra projetos apoiados pelo governo, como a exploração de petróleo na região amazônica.

“Estou sabendo que lá na foz do rio Amazonas o senhor está pensando no petróleo debaixo do mar. Penso que não. Essas coisas, na forma que estão, garantem que a gente tenha o meio ambiente e a terra com menos poluição e aquecimento”, afirmou.

A relação entre Lula e Raoni teve momentos de proximidade e tensão. Em 2023, o cacique criticou publicamente a demora do presidente em cumprir promessas feitas no início do mandato. “Desde a última vez que encontrei com ele, na cerimônia de posse, ele me prometeu que iria fazer ações em prol dos povos indígenas para que não existam mais essas ameaças e violência contra nós. E isso não está acontecendo”, afirmou, ele em entrevista ao jornal ‘O Globo’.

O presidente Lula colocando o cocar no líder indígena Raoni Metuktire. Foto: Divulgação

No ano passado, Raoni tentou uma reunião com Lula no Palácio do Planalto, mas não foi recebido. Em março de 2023, também pediu ao petista o veto ao projeto da rodovia Ferrogrão durante encontro no Pará, reforçando sua preocupação com a preservação ambiental: “Se o trabalho de destruir continuar, devemos ter problemas sérios. Para todos nós.”

Em seu discurso na aldeia Piaraçu, Lula afirmou que o encontro é um momento de escuta e respeito: “Hoje é um dia de homenagem, mas também de escuta para encaminhamento das soluções. Sabemos que há muito a ser feito, mas nossas políticas convergem no sentido de assegurar integralmente os direitos indígenas”, disse o presidente.

Lula também rebateu críticas sobre a extensão das terras indígenas no país, que correspondem a 14% do território nacional: “Os que reclamam que os indígenas têm muita terra no Brasil não devem se esquecer que, um dia, os indígenas tinham 100% do território nacional. Portanto, têm direito de reivindicar, brigar e conquistar quantas terras forem necessárias para manter sua cultura e tradição.”

O governo Lula retomou a demarcação de terras indígenas, que estava paralisada desde a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Até janeiro deste ano, 13 novas terras foram demarcadas, segundo levantamento do UOL.

A comitiva presidencial contou com a presença dos ministros Carlos Fávaro (Agricultura e Pecuária), Marina Silva (Meio Ambiente), Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas). De acordo com o Palácio do Planalto, os ministros devem colher as demandas dos povos do Xingu para ampliar programas voltados às comunidades indígenas da região.

Nascido por volta de 1932, Raoni é um líder proeminente do povo Kayapó, especificamente do grupo Metuktire. Embora não haja registros precisos sobre quando ele assumiu formalmente a posição de cacique, seu envolvimento ativo na liderança e defesa dos direitos indígenas remonta à década de 1950. Nessa época, ele teve contato com os irmãos Villas-Bôas, renomados indigenistas brasileiros, e começou a aprender português, preparando-se para interagir com não indígenas.

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