Apartheid baiano: a passarela que separa os ricos dos pobres no carnaval de Salvador

“Passarela do apartheid” construída para acesso a camarotes no Circuito Dodô (Barra/Ondina), no Carnaval de Salvador (BA). Foto: Reprodução

A verdadeira experiência antropológica que é o carnaval de Salvador traz, de fato, uma sensação indescritível, mas muito familiar para quem já pisou no maior carnaval do mundo: todo mundo seminu correndo atrás do trio, suor misturado e ninguém liga, as cores, a avenida que abre alas para a diversidade. Tudo que envolve o carnaval nos passa uma ideia muito convincente da mais pura liberdade.

A alegria da festa mais democrática do planeta dá a impressão de que a beleza do carnaval é para todos, mas não é bem assim.

Vale explicar brevemente a estrutura da festa: os ricos ficam nos blocos – usando camisas coloridas e caríssimas, os abadás, e separados do povão por cordas –; os riquíssimos ficam nos camarotes, festas privadas dentro de uma festa pública, que chegam a custar R$ 21 mil; os pobres ficam na pipoca (o melhor lugar da festa); e os miseráveis vendem cerveja.

A própria lógica do carnaval de Salvador sempre foi excludente, e não estou falando só dessa segregação estrutural bizarra, mas, principalmente, do lugar dos miseráveis numa festa que deveria ser democrática – mas só o seria em um cenário utópico.

Se você ficar sóbrio por um instante e olhar para os lados, verá os miseráveis – negros e negras, em sua maioria – espremidos na multidão vendendo bebidas em seus isopores; catadores de lata – preciso dizer a cor? –; os “cordeiros”, que seguram as cordas dos blocos e a fúria da multidão que não pode encostar nos brancos de abadá; crianças dormindo em papelões porque os pais ambulantes não tiveram com quem deixá-las; velhas e velhos trabalhando em condições insalubres; e toda sorte de desgraças que uma cidade tão alegre e linda quanto desigual pode oferecer.

Como se não bastasse tudo isso, os donos da cidade foram ainda mais longe: o empresário do cantor Léo Santana (um bolsominion enrustido, vale mencionar) teve a brilhante ideia de construir uma passarela que conduz os riquíssimos até seus camarotes open bar, sem que precisem passar pelos pobres.

Pior: a passarela apresenta graves falhas estruturais, tanto que foi interditada – felizmente – pela Defesa Civil. Um transeunte chegou a filmar a base de concreto da ponte exposta, em um vídeo viral.

Uma passarela mal estruturada que passa justamente por cima de uma multidão é uma tragédia anunciada, mas o prefeito Bruno Reis não se importa – tanto que concedeu aval para a obra.

Tudo bem construir uma ponte condenada sobre a cabeça de uma multidão, desde que os ricos não precisem encostar no suor dos pobres.

Isso que tem sido chamado de apartheid baiano é uma das coisas mais inacreditáveis de que tomei conhecimento nos últimos tempos.

 

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Não me choca que os ricos não queiram se misturar – nada novo sob o sol –, mas ainda me espanta pensar que o elitismo de um empresário o tenha levado a expor abertamente o ódio aos pobres com uma passarela bamba sobre suas cabeças. E que as ruas sejam tão abertamente negadas ao povo, e a privatização do espaço público cada vez mais descaradamente escancarada.

Diante de um carnaval tomado pelos camarotes, nos resta ocupar a rua – ou o que resta dela –, usar a alegria como arma, mas sem jamais nos esquecermos de que o carnaval tem todas as cores, mas só uma dorme na rua e cata latinha, como li em um grafite nas ruas de Salvador.

Não faz mal dançar em meio ao caos. E é bem verdade que, felizmente, poucas coisas são tão revolucionárias quanto o carnaval de rua: diante de tanto horror segregacionista, nos resta apenas uma ode ao desbunde como resistência.

 

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